Dentre os vários modais de desinformação que protagonizam importantes debates atualmente situa-se a desinformação econômica, um conceito superficialmente explorado na literatura científica e que carece de uma formulação conceitual que abarque suas complexas particularidades.
O senso comum costuma reproduzir alguns discursos genéricos e distorcidos de caráter econômico, por exemplo: “privatiza que melhora”; “o Estado é muito pesado”; “imposto é roubo”; “não dê o peixe, ensine a pescar”; “Bolsa Família gera desemprego”; “primeiro crescer, depois distribuir”; “o fim da escala 6x1 vai quebrar o país”.
Esses argumentos, se consumidos leigamente, mascaram os interesses de quem cria, espalha e se beneficia da sua popularização. Questões econômicas, complexas por natureza, são propositalmente simplificadas para serem facilmente assimiladas na formação da opinião pública em uma sociedade com baixa alfabetização econômica que, combinada com a escassez de pensamento social crítico, se torna vulnerável às mentiras, distorções ou falácias em narrativas econômicas.A principal especificidade da desinformação econômica reside na sua capacidade de obscurecer conflitos materiais sob uma aparência de neutralidade técnica ou inevitabilidade política.
Nesse contexto, o presente trabalho comunica a etapa teórica de uma pesquisa em desenvolvimento que objetiva conceber o conceito de desinformação econômica à luz da crítica da Economia Política da Desinformação.
O ponto de partida da construção conceitual é uma aproximação com as definições de desinformação que considerem a intencionalidade de enganar e causar dano, como a disinformation (Wardle & Derakhshan, 2017) e as fake news (Allcott & Gentzkow, 2017). Propõe-se formular uma concepção de desinformação econômica capaz de integrar múltiplas dimensões, incluindo a categorização a partir de três eixos analíticos: os interesses econômicos envolvidos; os conteúdos de natureza econômica veiculados; e as consequências econômicas decorrentes da sua circulação.
O recurso da mobilização teórica interdisciplinar entre a Economia Política, a Comunicação e as Ciências Sociais Críticas permite desvendar os condicionantes históricos, sociotécnicos e político-econômicos que operam nas dinâmicas do ecossistema desinformacional, reconhecendo a desinformação econômica não apenas como um fenômeno informacional, mas como uma engrenagem de manutenção das estruturas de poder. Traçar-se-á um percurso histórico que demonstra como a informação se consolidou como instrumento de dominação, desde os meios de comunicação analógicos até as redes digitais, articulando conceitos como opinião pública, propaganda, ideologia, hegemonia, negacionismos, dentre outros.
Adentrando os estudos críticos em Ciência da Informação, a análise caminhará para a reflexão de como a desinformação é instrumentalizada e disputada em regimes de informação (Frohmann, 1995; Gomez, 1999; Braman, 2004).Na imersão à nova configuração sociotécnica resultante das transformações impulsionadas pelo neoliberalismo, que caracterizam um regime de desinformação (Bezerra, 2024), examinar-se-á o papel da desinformação econômica associando-a à Desinformação Digital em Rede (Schneider, 2023).
Espera-se que a compreensão dos mecanismos estruturais que sustentam a desinformação econômica como estratégia de dominação ideológica ofereça uma base teórica robusta que possibilite, em etapa posterior da pesquisa, diagnosticar empiricamente o modus operandi da circulação de desinformações econômicas em redes digitais. Trabalha-se com a hipótese de que a desinformação econômica configura-se como um fenômeno ideologicamente coordenado que opera pela lógica neoliberal a serviço de interesses político-econômicos das classes dominantes.
Comissão Organizadora
Sociedade EPTICC
Comissão Científica
Ana Beatriz Lemos da Costa (TCU/UnB)
Anderson David Gomes dos Santos (UFAL)
Antônio José Lopes Alves (UFMG)
Carlos Alberto Ávila Araújo (UFMG)
Carlos Peres de Figueiredo Sobrinho (UFS)
César Ricardo Siqueira Bolaño (UFS)
Débora Ferreira de Oliveira (UFMG)
Edvaldo Carvalho Alves (UFPB)
Fernando José Reis de Oliveira (UESC)
Helena Martins do Rêgo Barreto (UFC)
Janaina do Rozário Diniz (UEMG/UFMG)
Janaíne Sibelle Freires Aires (UFRJ)
Kaio Lucas da Silva Rosa (UFMG)
Lorena Tavares de Paula (UFMG)
Manoel Dourado Bastos (UEL)
Mardochée Ogecime (UFOP/UFMG)
Marília de Abreu Martins de Paiva (UFMG)
Rafaela Martins de Souza (Universidade de Coimbra)
Rozinaldo Antonio Miani (UEL)
Rodrigo Moreno Marques (UFMG)
Ruy Sardinha Lopes (USP)
Sophia de Aguiar Vieira (UFMG)
Verlane Aragão Santos (UFS)